Dois jovens, um saxofone barítono, uma bateria. A noção do prisma catatónico, amplo e ansioso pela constante liberdade artístico-musical que há na free jazz. Numa tarde de gravação em que se sentiu o respirar turbulento, ininterrupto, contundente e improvisador, quanto baste, febril como revoltoso do dueto. As analogias poderão ser naturalmente feitas pelo audiófilo mais estreito às delirantes ondulações/comprimentos de onda de tão jovens emissores. Aliás, eles próprios depois de captados pela câmara o revelam, ao assumir os seus gostos particulares. De Sun Ra a JohnTchicai, de Frank Wright a Carla Bley entre um conjunto de outros rochedos de frequência musical que os anima enquanto melómanos e quiçá no momento de criação em tempo e local reais. As grandes viagens são assim. Não se medem apenas na durabilidade do encontro, nem na panóplia instrumental e electrónica dos materiais e práticas da sua execução. Potenciam-se e, podem crescer, na entrega, no efeito algo semelhante ao friccionar dos nossos sentidos e mente tal como conseguido pelas viagens focadas de um Sun Ra ou o grito contínuo de um ‘Free Jazz’ (Ornette Coleman e Don Cherry, 1960). Esta tarde de gravação trouxe obviamente dois jovens com ainda muito para explorar a esses níveis, mas deu-nos também, devido à sua frescura, a anímica central que tende por vezes a dissipar-se no seio de tal Arte Musical: a trivialidade envolta de entrega e volates que disparam em sentidos, por vezes adjacentes, da bateria e as tensões acumuladas que se evadem no sopro do sax. A transcendência, as suas influências/agentes referenciais (baseadas na sua génese por outras influências periféricas) dão ao duo aquele início algo polimórfico e irascível necessário à explosão de tal tipologia musical. Soraia Simões, para MPAGDP

Lisboa, Lisboa, Estremadura

Ir para Lisboa