Horários de trabalho, casas para pagar, declarações de IRS a preencher: em 2006 os sinais da idade adulta já não podiam ser ignorados. Mas podiam ser fintados, e na clandestinidade de um prédio semi-devoluto do centro de Lisboa começaram uns ensaios. Os armários da adolescência foram abertos; o pó foi limpo; as guitarras desenferrujadas. O vizinho do terceiro andar foi o primeiro a não levantar objecções. As famílias foram tolerando e os amigos apareciam aos primeiros concertos. Surpreendentemente, voltavam. Havia coisas para dizer, e elas foram sendo ditas. Histórias de uma certa clandestinidade emocional que de repente era exposta à luz do dia. Entretanto, o prédio do centro de Lisboa deu lugar a uma sala na fronteira entre Moscavide e Sacavém. Houve uma ida aos Olivais para gravar duas canções; houve um fim-de-semana no Porto para gravar mais duas. Uma dessas canções passou na rádio. Ninguém tentou proibir. Se a música pop serve para seduzir raparigas, o processo corria bem: foram festejados dois casamentos. Em 2009 surge a primeira colecção de canções, intitulada homonimamente TRÊSPORCENTO, que é um agradecimento (e uma justificação) a todos aqueles a quem os ensaios roubaram tempo; e também uma homenagem à vontade juvenil de ser um músico de palco. Cada dia que passa fica mais difícil fintar a idade adulta, que vai impondo uma grelha de prioridades onde o pedal de distorção vai perdendo espaço. Mas os TRÊSPORCENTO ainda estão muito longe de desistir.

Lisboa, Lisboa, Estremadura

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