A Tuna de Carvalhais é o exemplo genuíno do que foram as tunas rurais de outrora.
De cariz familiar dado o microcosmos isolado que era Carvalhais (Louredo, Santa Marta de Penaguião), no fundo do Marão, a sua história confunde-se com a do seu fundador e patrono primordial, o extraordinário Homem que foi Joaquim Alves Lourenço (1904-1998), que com 13 anos, juntando a paixão do Toque com a faina da construção de instrumentos, consubstanciada mais tarde com a profissão de carpinteiro, constrói uma flauta de cana com as quais acompanha as Tunas que existiam (“Com 10 anos começa a Guerra no Mundo e a Tunas começam a surgir…”).

Por volta de 1927, depois de comprado um bandolim, com o qual se aperfeiçoa na arte, e da vida militar, constrói com grande dedicação o primeiro violino, depois outros, violoncelos e violas, concerta para arranjar mais algum dinheiro, e funda o primeiro núcleo da Tuna com o sobrinho José Augusto Lourenço e os familiares Duarte Lourenço e Daniel Barria. Quando saíam juntavam-se-lhes dois tocadores de Paradela do Monte, dois do Barreiro e um de Fiolhais. Vêm os filhos, mais família e a Tuna cresce, chegando a ter 13 elementos. Mestre Joaquim ensina incentiva e inventa novas formas de apoio à paixão. Cria um código pessoal de transcrição musical que usa para compor e, em ocasiões pessoais, para ler a música, pois que de pauta nada sabe...
O filho António compra um clarinete em 1959. Em 1960 vai para a tropa mas regressa breve. Até 1963 Joaquim e António partilham o “mestrado” da Tuna.

Em 1963 o filho Abílio, violão e violoncelo da Tuna, morre na guerra em Cabinda. O Toque cala-se por dez anos. Recomeça, por insistência do padre da freguesia que consegue convencer o renitente Joaquim. No entanto o Mestrado passa para o filho António Joaquim M Lourenço.

António começara a tocar violino com 9 anos, aos 12 passa para a flauta e volta ao violino, novamente à flauta e, com 20 anos, adquire o clarinete e passa a ser o seu tocador na Tuna. Como Mestre cumpre apaixonadamente todas as funções que lhe competem, nomeadamente a regência, o ensino, o arranjo e a composição que faz de forma virtuosa, como quando toca. Surge gente de fora, de mais ou menos longe, a quererem tocar.
No entretanto o filho Jorge, tocador de violão, inicia-se, na senda do avô, na arte da construção de instrumentos de corda, que continua de forma mais ou menos constante.

A paixão não é menor, mas tinham surgido já os altifalantes e a “utilidade” da Tuna é posta em causa, tendo começado a perder a projecção, o interesse e importância que tinha. A Tuna perdeu saídas (“os altifalantes não tinham barriga”, não era necessário dar de comer aos tocadores) e os hábitos e costumes foram mudando. A Tuna deixou de ser o único meio de festa e folguedo das aldeias, e foram desaparecendo a um ritmo acelerado.

Hoje a Tuna de Carvalhais mantém-se por teimosia e paixão. Como antes, estão representados, de momento, três gerações de Lourenços, pai, filhos e netos, a tocar na Tuna. No entanto, os filhos (11) quase todos emigrados, os netos que em qualquer altura podem deixar o instrumento, o pai não se reformando porque a paixão não o deixa, a Tuna continua a tocar! Para além da família e da terra, outros tocam, alguns partilhando o toque com outra Tuna.
De momento, por condicionalismos relacionados com a idade e saúde, o mestrado é praticamente partilhado com filhos, e a sucessão é praticamente inevitável a prazo mais ou menos curto. Uma coisa é certa, a Tuna vai continuar a tocar! A paixão de António continua teimosamente forte, como se a vida só valesse a pena com ela!

Assim continue o Toque!

Santa Marta de Penaguião, Vila Real, Trás-os-Montes e Alto Douro

Ir para Vila Real